PINFLIM – A MINHA HOMENAGEM

Há figuras ou personagens características que marcam a nossa vida e para mim uma delas é o PINFLIM. Esse personagem, natural de Aveiro, tinha ido para Angola com “carta de chamada” ainda  muito novo. Era barbeiro de profissão. Era uma pessoa de estatura baixa, não tinha mais de 1.60mts e quando o conheci já andava curvado pela idade e pela vida de boémio que tinha levado ao extremo. Também quando o conheci, tinha eu uns 8 ou 9 anos, já o PINFLIM estava na sua fase decadente depois de uma vida faustosa de luxos, de rambóias e mulheres. Reza a história que chegou a ter uma avionete.

Morava no Bairro Marçal, numa cubata simples com cobertura de zinco, junto a uma grande molembeira. O nosso amigo PINFLIM, teve a particularidade de ter o mundo nas mãos depois de ganhar a lotaria. Naquela altura era uma pipa de massa e o nosso amigo vai de gastar a fartazana. Foram uns anos de glória para esse personagem que ficou com a Jesuína, a Mabunda e outros ligados a história de Angola e são estudados em alguns textos. Alguns escritores Angolanos e mesmo o Bonga uns incluem nas suas prosas, versos ou músicas.

Uma das características impares do FINFLIM, era o seu ar avermelhado, a sua camisinha branca e os seus famosos joanetes. O PINFLIM não andava, ele planava, porque os seus joanetes não deixavam colocar a palma do pé toda no chão. Outra imagem de marca era a sua pequena mala de cartão, daquelas do tipo manicure que hoje se usam, onde além do pano branco, tinha todos os utensílios para cortar o cabelo, desfazer uma barba, mais já usava naquela altura o famoso FLOID.

Mas a última façanha do PINFLIM digna de registo, para aí em 1973, já com uns 80 anos foi ter arranjado uma “rapariga do engate” que alojou na sua cubata e do alto do seu copo de quarto de abafado que ele bebia assiduamente, dizia encostado ao balcão, “Nelito, vou ser pai outra vez” se for mestiço é meu filho. O PINFLIM era um homem de certezas “se fosse mestiço tinha de ser dele” e aí de quem afirmasse o contrário.

Esta é a minha homenagem a essa figura ímpar do Bairro Marçal que recordo com muita saudade o SENHOR PINFLIM, que em 1994 estava gravemente doente com uma tubercolose.

PS: A maior qualidade do PINFLIM era ser Benfiquista Convicto, mais do que isso era Doente pelo SLB. Seja o SLB devia fazer uma justa homenagem a este Grande Benfiquista.

A GRANDE REFORMA DO IIL

“Quando o avião levantou voo e fez a curva para a direita tive a noção exacta que seria a última vez que veria  a minha Terra, Terra em que tinha nascido e por opção Terra que queria ajudar a crescer.”

 
            Corria o ano de 1974, e pelas 4:00 horas da madrugada lá estava eu a fazer os ensaios de carga das estacas que suportariam a estrutura do novo Hospital de Luanda quando chega ao pé de mim o Engenheiro Mendes, responsável pela Sondadora, uma empresa responsável por fundações especiais em estacaria e paredes moldadas no solo e me diz “Parola, ouve um golpe de estado em Portugal”. Depois foi a mudança radical, primeiro em passos envergonhados depois atrapalhados.
            De manhã cedo quando fui para as aulas quase que não se ouvia falar de golpe de estado e muito menos de revolução, o sinal rebentou no Bar da Associação de Estudantes, quando o Zeca Afonso, o Correia de Oliveira, o Zé Mário Branco, o Fanhais e o Paulo de Carvalho abriram as hostilidades. Nunca a música tocou tão alto e sem medos.
            Corria em Portugal a reforma de ensino de Veiga Simão que sofria os atrasos próprios do regime mas que não se estendia ao Ultramar.
            Em meados de 1974, um grupo de alunos e professores progressistas, entendeu por bem dar uma volta ao ensino dos Institutos Industriais. Desse grupo fazia parte o Engenheiro Magalhães, o Engenheiro Costa Lobo, o Amaral, o Zé Pedro, eu próprio e muitos outros.
            Começavam a chegar a nova elite de licenciados da Universidade Patrice Lubumba na União Soviética e outros de Cuba e da Republica Democrática do Congo.
            Começava a louca correria de planos de estudo, de planos curriculares, de cargas horárias, sei lá uma imensidão de coisas que ocupava o pessoal em exclusividade.
            Na altura não havia internet e faxes cadê deles, mas nada fazia desistir o pessoal.
            Em Portugal Continental os estudantes andavam a trouxada e com passagens administrativas e por lá tudo empenhado na grande reforma.
            Toma posse o Governo de Transição chefiado por um grande Senhor o Professor Doutor Mário Vieira de Almeida e o Ministro da Educação era da Unita, o Doutor Januário Wanga, uma pessoal afável, com um trato educado e sempre muito atencioso. Tinha tirado o curso de geologia na Bélgica e estava dentro dos sistemas de ensino menos elitistas.
            Numa azáfama desenfreada de consulta de cursos nomeadamente do MIT, da Bélgica e da Suíça, foi possível com ajuda de um importante especialista que trabalhava na reforma do ensino cá, avançar para um ensino moderno, prático e adequado a realidade do futuro País.
             A família Guerra Marques, excelentes professores da Universidade de Luanda deram uma ajuda na elaboração dos planos curriculares, em que as cadeiras de Computadores, Análise Matemática e Física tiveram um peso importante no 1.º ano do curso, ou mais concretamente nos primeiros três semestres. a Resistência de Materiais, a Mecânica de Solos, a Hidráulica Aplicada e o Projecto passaram a estar presentes.
            Dentro do prazo estabelecido pelo Ministro da Educação do Governo de Transição entregamos o nosso trabalho dentro do prazo e em Junho ou Julho de 1975 era aprovada a 1.ª Grande Reforma em Angola.
            Fomos muitos os que colaboraram empenhadamente no processo, mas cabe ao Engenheiro Magalhães todo o mérito de gerir a Reforma em época de revolução.
            Fiz muitas viagens com ele a Nova Lisboa para apresentar a Reforma, era um homem exigente e duro a negociar.
            Todos os que tornaram possível esta Reforma de Ensino que ainda hoje perdura pela inovação e consistência dos Programas, o meu Obrigado. Foi a Reforma que me permitiu deixar um Programa obsoleto e entrar num Curso competitivo, moderno e eficaz, conforme a minha vida profissional o demonstrou.
            Fiquem Bem.
            Mungo ué.
PS: A Professores como Professora Maria Amélia, Engenheiro Costa Lobo, Engenheiro Maia, Professora Gina, Professora Maria Emília, Professor Mineiro, vulgo “Batatoíde”, Engenheiro José Augusto e ao Professor de Betão e Estruturas o Engenheiro Rufino, devo a minha formação como homem e técnico.

CAÇADOR DE MEIA TIJELA

Já lá vão bués de anos, mas mesmo muitos mais de 40, mas a vida tem destas coisas e hoje quando viajava para o Porto para ver a mâe da Rosa Maria, lembrei-me desa faceta, porque numa Área de Serviço vi uns caçadores ou uns também de Meia Tijela.

Como já relatei por aqui numa das minhas memórias, eu tinha uma bicicleta “Rudge” roda 24 com o quadro arqueado que me servia para a escola que ficava bués de longe,cerca de meia hora a pedalar.

Mas adiante. Sei que tinha uns 15 anos ou por aí quando o meu pai me ofereceu um “Diana 27”, que ainda hoje repousa aqui no meu escritório de casa.

Para os que não sabem um “Diana 27” era uma arma de pressão de ar, que era o topo de gama da classe.

Com um canhão daqueles este artista, montava na sua “Rudge” roda 24 azul mar e partia pelo Musseque do Marçal, via Estrada da Cuca e depois da Mabor entrava pela pista de terra até a Moagem do Quicolo ou Kikolo, o célebre Km 14, como era conhecido. Essa zona era um autêntico campo de hortas que abasteciam Luanda e não só.

Antes de chegar a Horta do Capitão, cruzava a linha férrea e abancava debaixo de um cajueiro e esperava pelos rabos de junco, rolas e etc.

Ao fim da tarde tinha uma caçada satisfatória.

Na hora do regresso a “Rudge”  azul mar, vinha carregada de caça miúda e descia desde o Km 14 até ao Musseque Marçal.

Hoje vejo que era um Caçador de Meia Tijela sem futuro.

Era Aventureiro.

MUSSEQUE DO MARÇAL

Em kimbundu, língua oficial da zona onde nasci, “MUSSEQUE” ou “Mu Seke”, significa  ” areia vermelha”.

Musseque é um espaço de trânsição entre a cidade e a zona rural.

O musseque é fechado sobre si mesmo, num entrelaçado complexo e orgânico de ruelas, “pracetas” e corredores. As ruas estreitas, são corredores ou espaços de passagem, com a largura de um homem, desconhecendo qualquer tipo de planeamento, respondendo apenas à possibilidade de acesso peatonal aos espaços mais reconditos do coração do musseque, ocupando apenas os pequenos espaços sobrantes entre cada construção. Estes corredores são delimitados pelas próprias construções e por vedações, sustentadas por estacas, e fechadas com diversos materias recuperados nos lixos e abandonados nas obras, interrompidas por janelas e portas com as mesmas características.

Aqui a pobreza era grande mas as pessoas eram felizes com o pouco que tinham que era mesmo muito pouco. A música era o espaço de união, de revolta, as dikanzas e os tambores faziam o resto. As vezes de revolta face a situação política de então era dissipada na música no batucar forte nos tambores.

O “meu” Musseque era o Marçal, ficava a entrada da Avenida dos Combatentes a norte e estendia-se à nascente até ao Bairro de S.Paulo, a Poente até a Avenida do Brasil e a sul entrava pelo Musseque do Rangel. No Marçal a areia era vermelha e quanto mais se escavava mais vermelha era, soube mais tarde que era argilas expansivas, adoravam romper estacas de betão.

No Marçal o “semba” era uma música de forte batida, em que a dança era de tal maneira quente, que as dikanzas e os tambores faziam aguecer as barrigas. Foi do semba que surgiu a Kizomba e o Kuduro.

No Marçal, havia a oficina do Mário Cabo-Verdiano, o SUBA, Armazém de Luxo da classe rica da cidade, a Casa Sameiro, grande Armazém de mercearias, uma enorme estação de Tratamento de Água, um enorme Tamarineiro, uma big gajajeira e bués de macieiras da índia.

Os becos estreitos, ainda estão hoje na minha cabeça, e as vezes imagino-me de bicicleta “Rudge”  a passar ao pé da Jezuína, em direcção a Cacimba da Macambira para um banho. As casas feitas de barro e cobertas a zinco eram simples, só com uma divisão, depois vieram as casas de madeira.

Para ir ao Rangel onde tinha bués de colegas, seja o Rangel era o Musseque mais populoso de Luanda, ia a pé ou de bicla, passava pelos Armazéns do Sameiro, metia pelo Beco do Maneco e passava pelo Bar Chaves, pelos SMAE e lá longe estava o Rangel.

O meu “Musseque” era especial, era o berço do semba, de Elias Diá Kimuezo, de Vum-Vum, de África Show, de Bonga e dos Manos Mingas. Mas também tinha a Joana Maluca que deambulava pelas ruas do Bairro de São Paulo e do Musseque Marça. Da Joana Maluca há muitas histórias, mas a sua imagem de marca era quando a xingavan levantar as saias e mostrar as suas “partes baixas” e dizia , “cinema a borla”, Hoje a Joana Maluca, a Jezuina e a Mabunda fazem parte da História do Musseque Marçal e do reportório do Bonga e de outros cantores de Angola.

O Marçal era cruzado por duas grandes estradas em terra, a de norte/sul dos combatentes que passava pelo SUBA e entreva pelo Rangel e a nascente/poente que saía das Bombas da Texaco, junto aos Corrreios de São Paulo e passava pela Serração Bailundo e continua paralela até a grande vala que escoava as águas das chuvas até ao Cazenga.

A paracuca, doce de ginguba torrado com açúcar em tampas de bidons, o doce de côco caramelizado com açúcar amarelo, as múcuas e as gajajas era o sustento de muita gente.

Mas também tinhamos pessoas importante com a velha Jezuína, que vendia paracuca e doce de côco e a velha Mabumba, que com os seus panos coloridos e cigarro acesso dentro da boca, eram as grandes raínhas do nosso Bairro.

Ao fim da tarde por detrás da Carpintaria Pinto, era a hora dos ensaios em que o ronco do semba, se fazia ouvir até bem longe. O Maneco no Tambor e voz, o Pedrito nas no’gomas e eu nas dikanzas, vulgo reco-reco. E tinhamos nome artístico “Os Dikanzas”. Não eramamos assim tão maus, já que fomos tocar ao N’Gola Cine, mas aí levamos bailarinas, duas netas da Jezuina, a Manuela e a Terezinha, com saias de corda e cheias de missangas.

No Marçal um bom pirão com jindungo e uma muamba com galinha com kiabos, umas Cucas ou BangaSumo e era a alegria total. O dendém da Muxima e do Caxito e que se comprava do mercado do Zambizanga davam mais cor a funjada.

A praia não estava longe, bastava descer as barrocas do Zambiza ou Zambizanga, Musseque rival do Marçal e eis a Praia das Barrocas.

Nasci no Marçal, cresci no Marçal e sai de lá adulto, já com o curso acabado, tinha um orgulho enorme no meu Bairro, que até já tinha uns prédios, mas estradas de terra vermelha. O Marçal deu muita gente para a música, para o futebol, para a política, era um Bairro porreiro um Musseque como devia ser.

Mungo ué como se diz no meu Musseque.

Fiquem bem.

A MORDAÇA DA DOR, DA MINHA DOR.

“Quando o avião levantou voo e fez a curva para a direita tive a noção exacta que seria a última vez que veria  a minha Terra, Terra em que tinha nascido e por opcção Terra que queria ajudar a crescer.”

Numa noite de um dia qualquer de um ano qualquer mas distante, que não quero recordar e que paira sobre mim como um pesadelo angustiante, quando aquele Boeing 747 da TAP, me empurrou contra o banco e empinou o nariz e curvou para a direita, sabia que nunca mais voltaria a minha Luanda. Tinha ficado tudo para trás, os amigos, a escola, o emprego e sobretudo a infância, feliz muito feliz. O meu Bairro o Marçal não era mais que um Musseque a entrada da chamada cidade. Era fixe cheio de vida e de ritmo, merengues em cada esquina, pára-cuca -doce de jinguba com acúcar -e maçã da índia, gajajas com sabor amargo como a múcua,  castanha de cajú queimada na hora nos balaios da Jezuína ou da Mabunda. Ainda hoje consigo descrever na minha memória os cantos e os becos daquele Bairro, esquina por esquina, beco por beco. Muitas vezes dou por mima navegar por aqueles becos apertados, mas adiante que se faz tarde.

Mas o choque foi maior quando de manhã chegado a Capital do Império o frio intenso me fez gelar o corpo e a alma. Vinha de manga curta e o “baque” foi violento, tremia por todo o lado com medo do desconhecido.

Tinha a Rosa Maria e o meu cunhado a espera e partimos para o norte, passando pela Figueira da Foz aonde estavam os meus pais, que não sabiam da minha vinda.

O meu pai preocupado deu-me 2500$00, porque eu nem sabia a cor do dinheiro de cá. Lá fomos para o norte, para casa da minha irmã Maria do Carmo, que nos deu guarida, cama e comida.

Agora era preciso arranjar emprego, mas o País estava em convulsão, eram as nacionalizações, era o PREC, era o COPCON era o SAL era a revolução, enfim o necessário.

Então de manhã bem cedo estava a porta da Biblioteca do Porto, para ver os jornais e ler os anúncios e de lá partia a pé em busca de trabalho, mas a resposta era sempre a mesma “Ainda é muito novo, preciso com mais experiência” ou “Já está ocupado”. Mas, o que era necessário era não desistir, era preciso lutar, ir a lutar porque as coisas estavam cada vez mais difíceis, sem dinheiro, casado e a viver e a comer em casa da miha irmã.

A Rosa Maria tinha conhecido uma Condesa que lhe encomendavas muitos vestidos e arranjos e isso ia dando para as nossas despesas, mas às vezes era muito complicado, porque não havia $$$ nenhum, zero, nada, nem um simles centavo. Sabem o que é um tipo ver um bolo ou querer tomar um café e népia, “comer com os olhos”. Sabem o que é ter sapatos mas sentir o frio da calçada e o molhado do chão, se não sabem também nunca queiram saber, porque é mau, muito mau, transforma um tipo num farrapo se for abaixo das canetas. Nunca nos devemos resignar, nunca, nunca, nunca, NUNCA.

Até que um dia soube que o Ministério da Administração Interna, MAI, estava a recrutar pessoal para os GAT’s, Gabinetes de Apoio Técnico e resolvi ir a Lisboa ao Ministério, seja semprei pensei que devemos ir se lutamos por uma coisa. E assim fiz, fui com a Rosa no comboio regional até a Figueira da Foz, falei com o meu pai e pedi-lhe emprestados 500$00 – todos esses valores estão  anotados e guardados numa pasta – e parti para Lisboa de carro porque o meu pai disse que assim era melhor. Atestou o Austin 1300, com a matrícula VZ-52-12 e parti a noite. Chegamos a Lisboa perto da meia noite e dormimos dentro do carro, num Parque de estacionamento por detrás do Rossio, penso que ainda existe.

De manhã cedo, lá fui para o MAI, apresentaram-me ao Engenheiro Manuel Dias, entreguei a minha candidatura e o o currículo e voltamos para a Figueira da Foz e depois de regional para o Porto.

A espera foi dolorosa até que um dia recebo uma carta para ir a uma entrevista a Estremoz. Nem hesitei, falei com o meu cunhado e pedi-lhe 300$00 emprestado, o dinheiro suficiente para ir, só para ir, porque não podia regressar, não queria regressar, tinha de lutar pelo lugar.

Fui de comboio, sempre de Regional, saí  à meia noite e cheguei a Estremoz com 3 transbordos cerca das 15.00 horas.

Fui ao GAT e sorte do caraças, o Director do GAT que estava de saída para Lisboa é a pessoa a quem eu pergunto pelas instalações ele respondeu com uma pergunta, “Queria alguma coisa delá, é que eu sou o Director”, e eu respondi vinha para a entrevista. Mas o homem estava cheio de pressa, mas lá me atendeu depois de muita insistência.

Depois de muita pergunta/resposta o  Eng.º Valdez responde, “preciso de muita gente, topógrafos, medidores, desenhadores mas engenheiros só com muita experiência, porque novatos já tenho uma”, e lá estava uma engenheira a um canto da sala.

Eu disse-lhe dê-me uma oprtunidade, uma semana, só uma semana, mais, trabalho com engenheiro e recebo com desenhador, mas dê-me essa oportunidade. O homem viu-me tão aflito que disse combinado, uma semana, mas uma semana.

Chamou o Modesto um desenhador e disse-lhe entrega aqui a este Senhor os desenhos do Lavadouro de Rio de Moinhos para ele calcular.

Mas o pior estava para vir, sem guito e sem poiso a coisa estava a ficar preta, o frio era mais que muito, era cortante aquele frio de Estremoz, e o Modesto perguntou-me, “Tens onde ficar” e a resposta foi óbvia, “Não”. Não te preocupes ficas no “Xico do Cano”, onde eu estou e temos direito a pensão completa por 3500$00. E assim foi o Senhor Francisco recebeu-me de braços abertos e instalou-me o melhor que pôde, ficar-lhe-ei grato para toda a vida, nunca me esquecerei disso, jamais.

No dia seguinte comecei na labuta e fui esgalhando trabalho atrás de trabalho, fazia tudo, cálculos, desenho, medições e orçamentos. Uma semana depois estava admitido não como desenhador mas como Engenheiro de 1.ª.

Mas havia outro desafio mais aliciante, era o GAT “entrar” na Câmara de Vila Viçosa, o Presidente na altura não via com bons olhos o GAT e solicitou a elaboração do Projecto da Rede de Abastecimento de Água a Vila Viçosa.

Era um projecto difícil, com muitas implicações de aprovação e o Eng.º Valdez faz-me o desafio “Parola temos de fazer isto, rápido e bem para ser aprovado, pelo Núcleo de Saneamento Básico de Évora”.  Ele sabia o que dizia e as implicações que isso trazia, era obra entrar no sistema dominante, mas nada como tentar.

O desafio era enorme, mas era preciso avançar, rápido mas bem, e era  aminha área preferida, sempre adorei hidráulica, fascinava-me o desafio.

Parto para o terreno com o topografo o Senhor Pinto e com o trabalho de campo e de Gabinete em pouco mais de um mês, o projecto estava em Évora para aprovação no NSBE.

A informação do NSBE era um “tratado”ainda hoje guardo aquele documento com especial carinho e orgulho, aprovava o projecto e reconhecia “Excelência” na sua qualidade. O Eng. Valdez reconhecido por este trabalho promove-me a Eng.º Especialista Principal.

Mas nem tudo são rosas, o sentir da calçada fria nos pés e o frio intenso deixaram marcas, marcas profundas, que ainda continuam por cá, mas a luta mais uma vez a luta e a força de vontade levaram a que tudo fosse ultrapassado. Foi uma das fases mais difíceis da minha vida que só com a ajuda da Rosa Maria e dos amigos em Estremoz foi possível ultrapassar, mas mais uma vez tinha conseguido.

Entretanto na altura tinha concorrido para quado da ONU e enviei a minha candidatura para Genebra e tempois depois recebi umja carta para  mim apresentar em Genebra para ir para o Burkina Faso, não fui porque estava doente, muito doente o frio tinha deixado as suas marcas. Hoje questiono-me o que teria sido a minha vida se tivesse optado por ser quadro da ONU, mas não gosto de pensar nisso.

Estabilizado e reconhecido o meu trabalho pelo Eng.º Manuel Dias Coordenador Geral dos GAT’s, fui depois para Manteigas, Seia e Lousã sempre com o trabalho de “sapa” de entrar nas Câmaras Municipais o que era difícil, muito difícil.

Hoje reconheço que passei as “passas do diabo”, que o frio e às vezes a fome me fizeram ver as coisas de modo diferente, mas também sei que só com a ajuda da família foi possível ultrapassar situações de quase desepero, nomeadamente quando cá cheguei em que muitas vezes “comia com os olhos” o que via nas montras dos restaurantes, mas isso fez de mim uma pessoa mais solidária e sensível.

Os meus amigos foram e serão sempre muito importantes  na minha vida e um tipo sem amigos não é nada é um “sózinho”. “Sózinho” nem sequer é uma palavra bonita, atraente é um “só pequenino”.

Eu costumo dizer aos “putos” meus amigos que a amizade é um pilar da vida e que neste mundo dos “isolados” de quatro paredes em altura é importante nós termos mais alguém para além da família.

Eu já passei por muito, por fome, por muito frio, por emboscadas com o limiar da morte, por aventura no limiar da sede, por doença no limiar da cegueira, mas luto,  luto sempre porque acredito na família e nos amigos. Todos os dias quando acordo o meu primeiro acto é ver se vejo a luz do sol a entrar na persiana, é ver se vejo o reflexo da luz do relógio do rádio é ver se vejo sem reflexos ou relâmpagos é sobretudo ver, até quando não sei, mas ver e viver é o mais importante.

Fiquem bem.

Inté.

A Rosa Maria, ao Nuno, ao Rui e a minha mãe Maria do Céu, que são os meus pilares, amo-vos bués.