MUSSEQUE MARÇAL – Fragmentos de memórias nº 13

Musseque Marçal quase ao pormenor – 1.ª parte

 Todos os Musseques tinham, a sua história, mas o Marçal batia-os a todos. Era um Musseque diferente, já que ficava entalado entre a CAOP, o Sambizanga, o Rangel e a Vila Alice. A sua areia vermelha era uma imagem de marca, que tornava os charcos na época das chuvas da cor do Glorioso.

Mas, o Marçal era mais do que isso, tinha os seus símbolos, os seus heróis. Aqui, vou tentar ao fim de quase 40 anos lembrar-me deles aleatoriamente.

– Bairro do Teixeira, era como que um condomínio fechado, mesmo encostado à Rua Garcia da Horta, hoje Soba Manduomé;

– Casa Gonçalves, uma Casa de Pasto tradicional, que nunca fechava durante todo o ano. Peixe frito com arroz, e massa com aba guisada, era o forte da casa. Tinha também para os “brancos” uma espécie de pensão, com a sardinha salgada vinda do Continente (Portugal) era o prato forte ao sábado;

– Armazéns do Suba – eram um enorme edifício retangular, caiado de branco, mas com um interior repleto de bons tecidos, perfumes e tudo de chic o que se consumia na Europa, mas não no Continente (Portugal), onde a nata da burguesia branca, que em limusinas, pelo meio da areia vermelha, iam ao final da tarde, ver as novidades de alta-costura.

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25 de Dezembro – Uma história de Natal a Sul do Equador

Uma história de Natal ou quase Natal…..no Musseque Marçal (S8 49.445 E13 15.251)

Era um dia como os outros, de trabalho muito trabalho, doloroso e algumas vezes quase esgotante. Todos tínhamos que trabalhar no duro e o jantar à vez, resumia-se a um prato de bacalhau cozido com batatas, regado com muito azeite.

Sapatinho no fogão ou brinquedos, nada disso existia, não havia tempo, não havia espírito, não havia Natal.

A vida era dura, muito dura, a velha Casa de Pastos Gonçalves, nunca fechava, ou quase que nunca fechava. Abria todos os dias do ano. Começava bem cedo pelas 6:00 horas da manhã e encerrava depois da meia-noite, todos os dias, mesmo no Natal.

Na velha e grande cozinha, onde os fogões à lenha, cozinhavam aba com massa ou arroz com faneca frita. Só uma vez teve direito a uma meia pendurada na chaminé, mas Ele o menino Jesus, não gostava dos trópicos e nunca desceu aquela velha chaminé, junto ao grande tamarineiro.

Ano após ano, naquele dia 25 de Dezembro, foi dia que nunca foi Dia de Natal, para mim e para muitos outro, era mais um dia, que por sinal era o dia mais trabalho de todo o ano e foi assim até eu ser grande…

Ainda hoje, o dia “quase” que passa indiferente, mais um dia que ainda não é de Natal. Ma,s penso lá chegar com a ajuda da Rosa Maria, do Nuno, do Rui, da Ana, da Catarina e sobretudo da  Ana Carolina, quem sabe…ela me leve a ter um Natal…..a Norte do Equador

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 12.º- MIL NOVECENTOS E SESSENTA E ………um

A noite estava serena quando de repente se ouviram o som dos tiros das carabinas e os gritos de dor dos inocentes. Ninguém sabia o que passava na escuridão da noite sem lua. De manhã as notícias eram alarmantes, trágicas e doridas.

Os primeiros relatos, dão conta de um massacre na zona norte. As primeiras fotos, dão a imensidão da dor dos inocentes, espetados em paus pelo ânus ou pelo sexo.

Depois pagaram todos os bons e os maus, os culpados e os inocentes, deixando marcas que permanecem até sempre, no reboliço de sons, de dor e de raiva, mas nada que mais tarde ou mais cedo iria acontecer……..

Tinha nove anos, morava no Musseque Marçal e tudo isto era muito estranho, tão estranho que muitas décadas depois, me comovo ao ainda ouvir os gritos dos inocentes que caíam e morriam sem saber porquê.

Não há nada que apague aquelas IMAGENS E AQUELES SONS, nem o tempo depois de tanto tempo………

“Quando o avião levantou voo e fez a curva para a direita tive a noção exacta que seria a última vez que veria a minha Terra, Terra em que tinha nascido e por opção Terra que queria ajudar a crescer.”

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 11.º

Como em todos os meus Fragmentos de Memórias, aqui também a data pouco importa, mas talvez seja importante agarrá-la ao tempo. O tempo já foi há muitos anos, cerca de 39 anos de um dia de Setembro de 1975.

Mesmo na anarquia da guerra civil, os serviços funcionavam ainda embalados pela inércia das funcionalidades administrativas da velha máquina colonial.

Numa manhã como as outras, dirigi-me aos SMAE, (Serviços Municipalizados de Água e Electricidade) de Luanda, lá para os lados da Casa Americana e quase ao pé do Estádio dos Coqueiros, havia uma fila enorme, para pagar a água e a luz. A fila estendia-se em direcção a rua de acesso ao Estádio, com enorme confusão, pois ninguém queria ficar tanto tempo a apanhar “seca”.

Depois de quase um hora, na fila, um Grupo de pseudo tropas de um dos Movimentos que lutavam por controlar a cidade, avança para os “pagantes em fila de espera” e de modo aleatório e de dedo em riste, larga a frase “colonialista de merda, quantos mataste?chegou a tua hora”.

Tenta-se manter a calma e sobretudo conter a afronta, contando com o pessoal da fila, que a todo o custo, tentava acalmar as pseudo tropas, que não desistiam e ameaçam “com julgamento popular, queremos justiça popular”.

A confusão é enorme, gera-se um enorme burburinho e o mais importante era sair dali, o mais rápido possível. Bem perto havia uma das maiores e melhores livrarias de Luanda a Argent Santos, imponente, moderna, num edifício de esquina todo envidraçado, que naquele instante serviu para de uma forma segura, ficar resguardado e mais tarde voltar para a fila e pagar o que se devia………Mais situações similares passaram a ser o dia a dia próprio de uma guerra civil violenta com uma revolução pelo meio….

“Quando o avião levantou voo e fez a curva para a direita tive a noção exacta que seria a última vez que veria a minha Terra, Terra em que tinha nascido e por opção Terra que queria ajudar a crescer.”

 

 

UMA HISTÓRIA DE QUASE NATAL….Dizem

Dizem, que chegou sem contar, num dia frio de inverno, despido de afectos e vestido de raiva. Dizem, que desceu a escada do avião e degrau a degrau, contando o tempo e ao mesmo tempo, num turbilhão de imagens e acontecimentos ia buscando solução para o imprevisto. Dizem, que ele, já tinha passado por diversas guerras, todas marcantes e impiedosas, mas esta sem armas era a mais difícil de todas.

Dizem, que o ar gelado da madrugada no aeroporto, não lhe gelava a alma tolhida pela guerra, embora viesse de mangas de camisa, dizem que se fez ao desafio, sem armas, sem dinheiro, mas dignidade e sobretudo, com o maior amor da vida dele.

Dizem, que olhou para todos os lados e sem tostão, se manteve firme, buscando por entre as pessoas, aquela que mais amava, e lá estava ela, linda como sempre, sorrindo e pronta para a luta.

Dizem, que a sua busca incessante em buscar o ganha-pão, calcorrear a “Nobre e Invicta”, numa corrida desenfreada a pé, sempre de cabeça erguida, sempre em luta, nunca se conformando com a resposta “é novo demais, lamento”.

Dizem, que obstinado, nunca desistiu da procura até que começou a sentir nos pés, o frio da calçada de granito, o cheiro doce dos pastéis, e os aromas do café, seja comia com os olhos e sentia o rugoso do granito nas plantas dos seus pés.

Dizem, que um dia, uma aristocrática, sabendo que a mulher da sua vida, tinha muito jeito para os panos, a contratou quase em exclusividade, para fazer muitos vestidos e pela primeira vez puderam muito felizes, saborear com o seu dinheiro um café e um pastel.

Mas, segundo dizem, alguns amigos a maior alegria que tiveram, foi comprar um frango de churrasco, uma garrafa de “Três Marias” e junto a um arbusto, do Passeio da Foz, saborearem, pedaço a pedaço, golo a golo, a maior alegria dos últimos meses.

Dizem, que um dia, obstinado como sempre, partiu, com rumo e destino, mas sem mala nem dinheiro, para o sul, onde o frio, era ainda mais frio, mas as pessoas mais afáveis.

Dizem, que foi tão obstinado e convincente, que conseguiu meter o Rossio no Largo do Xico do Cano….lá para às bandas de Estremoz…..,ela, a amada foi ter com ele.

Dizem, que eles, continuam felizes, com a família maior, muitos amigos, e que até hoje o melhor frango de churrasco e o melhor verde, foi aquele que comeram na Foz do Douro, porque foi comprado com muito suor e comido com amor…….