VIAGEM DE SONHO – ANGOLA 1968 – Parte 1

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Pois é!

Desde muito puto que a aventura me morde os calcanhares e não sei bem porquê, desde sempre que assim foi até hoje.

Nesta minha viagem de sonho, tinha 16 anos e nas férias grandes, lá apetrechei a minha Maxi Puch a dois tempos, com suspensão de molas a frente e eixo rígido a trás.

Mandei fazer uma armação em ferro para encosto das costas e “agarrar” a mochila, a minha mãe fez um saco lona para suportar 2×1,5 litros de gasolina mistura e umas latas de conserva e voilá até Moçamedes, para ver o Deserto do Namibe, que ficava a 1200 kms, seja 2400 ida e volta.

Mas estava escrito, tinha de ser, tinha de ir ver o Deserto, as avestruzes gigantes e sobretudo a Welwitschia mirabilis, planta que só existe neste Deserto e que vive mais de 100 anos.

Bem, sei que foi em Agosto mas já não me lembro do dia e que saí de madrugada, só com a minha Maxi Puch, atestada de gasolina, bués de latas de atum e sardinha e algum quito no bolso.

A viagem era dura, difícil e perigosa entre Catete e o Golungo Alto, já que a guerilha do MPLA, andava activa pelo menos de noite.

Mas lá basei feliz e contente com a minha marcha dos 40 Kms/hora como velocidade média, salvo quando era a subir que tinha de ajudar com os pedais, mas nem sempre ou não fosse uma Maxi Puch Made in Austrich.

Nas calmas e sem problemas lá passei Catete, Golungo Alto e parei no Dondo para almoçar e atestar a “Lady”. Sim, todos os meus carros ou motas têm nome próprio por exemplo o meu Land Rover Defender é o “Savimbi”, pois começa com a matrícula em SA.

Para meu espanto tinha feito uma média bestial, porque tinha demorado umas 6 horas para fazer 200 kms. Ainda me lembro de ter almoçado numa explanada tipo quiosque que existia logo a entrada da Vila. A Vila do Dondo era um importante  nó rodoviário de quem ia para o norte via Salazar hoje Dalantando ou para sul via Quibala para Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Benguela, Lobito, Moçamedes ou para as Terras do fim do Mundo.

Mas eu queria mesmo era ir para Moçamedes, queria ir ao Namibe e como tal fui para Sul.

A saída do Dondo virei a dta para Quibala que não era mais que um ponto de paragem dos Bigs Camions com Big atrelados que varriam Angola de uma ponta a outra. Posso dizer que tinham uma vida dura, mas eram felizes e via-se na sua cara. Eles adoravam os seus camions.

Ainda me lembro de passar  na Ponte sobre o Rio Quanza e ver mais adiante o Bairro dos Funcionários da Barragem de Cambambe, passava-se a Ponte subia-se sobre a esquerda e lá estava aquela obra imponente, orgulho da nossa engenharia.

Este percurso era mais sinuoso e sempre a subir para o Planalto, o maior e mais belo planalto do mundo o Planalto da Cela que ia da Quibala as fraldas do Alto Hama.

Mas a minha Maxi Puch mantinha-se firme lambia aquelas subidas todas nas calmas e chegamos a Quibala às 21 horas.

Na Quibala havia bués de Pensões, Casas de Pasto e como tal lá encontrei uma Pensão económica aonde comi, porque dormir foi ao lado da Maxi Puch, com uma manta e uma esteira, debaixo de um alpendre.

Às 4 da matina não era preciso relógio, porque as bigs Mercendes-Benz, as Scanias, as Volvos, as Mack’s e as Trader’s faziam bués de barulho para encher os reservatórios de ar para as caixas de velocidades e travões.

Pois, tinha de ser e a etapa era longa, da Quibala a Nova Lisboa, pelo Planalto da Cela, com bués de camions a passar com os seus reboques super carregados que quase atiravam cá o “Je” borda fora, tal era a deslocação do ar, ou o ronco de saudação dos camionistas.

As 9.00 horas da matina estava radiante a ver os kms e kms de plantações de abacaxi, para fabricar o famoso vinho Bangasumo”.

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Por volta do meio dia chego a Cela e estaciono na “Area de Serviço da Shell”, ya, a 31 anos de distância já havia áreas de serviço em Angola, aquilo era  um coisa enorme com pagamento ao guiché e  auto-serviço.

Na Cela havia um colonato e via-se Tugas a moda de Tugas.

Recomposto e com a Lady atestada era preciso chegar ao Alto Hama e depois Nova Lisboa. Mas chegar ao Alto Hama era obra porque a parte final era muito a subir muito a subir e a Lady ia de certeza aninhar-se.

Mas nada que não se resolvesse com imaginação, mas isso eu já conto.

Então, arranquei nas calmas e ao chegar a famosa subida do Alto Hama, reparei que os Bigs Camions super carregados iam em marcha muito lenta e super acelerados a gemer para vencer o desnível, e vai daí toca de apanhar uma boleia, seja estrategicamente colocado tenho de me agarrar a traseira de um deles e voilá  eis a solução, a minha Lady agradecia a ajuda.

Quando cheguei ao Alto Hama, aproveitei para tomar um duche, no tanque junto a estrada com as suas famosas águas termais a uns 60º C, era uma delícia, voltei lá várias vezes e tenho num joelho a marca de um mergulho mal calculado.

Eram para aí uma 5 ou 6 horas da tarde e ainda faltavam 60 ou 80 kms para chegar a Nova Lisboa, mas como diria o outro em beleza, nem a Lady aquecia era sempre a descer.

Cheguei a Nova Lisboa por volta das 21.00 horas e lá fui para casa da avó do Abílio Silva que me esperava.

Texto não editado.

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I EXPEDIÇÃO LISBOA A LUANDA EM TODO TERRENO – 1992 – FINAL

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Pois é.

Dia 2 de Abril de 1992

O que queriamos mesmo era chegar a Kidal. Para nós, Kidal era o paraíso.

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Saímos bem cedo do acampamento, pela calada da madrugada… penso que até os motores falavam baixinho, tal era o cagaço do 4ºassalto ou da liquidação total.

Partimos, e tal era a pressa que tomámos um rumo errado, o que nos levou a andar mais para a esquerda quando deveria ser um rumo mais a norte. Chegamos a Kidal, e toca de ir ao posto fronteiriço que, pasme-se, não era mais que um barraco em barro. Tinha uma mesa tosca e uma cadeira que não era mais do que um assento de um carro qualquer, mas na versão “só-com-molas”.

Depois de um bocado à espera, aparece um soldado com arma à cinta, todo ele em grande estilo: casaco camuflado, calções e chinelos. Sem problemas, carimba os passaportes e avisa-nos que a coluna militar que garante a segurança do pessoal até Gao sairia às 13.00 horas. A tempo estava quase a queimar, mas mesmo assim ainda deu tempo para beber uma Fanta numa espécie de mercearia.

Kidal era uma espécie de zona militar avançada. Parece que tinha um forte destacamento militar francês, pelo que vimos por umas instalações militares ao longe.

À hora certa, arrancámos em coluna militar, mas as “chaimites” – velhos carros de combate – paravam constantemente, porque aqueciam ou “pediam” óleo. Foi uma viagem lenta, com muitas paragens.

Depois de uma tarde em andamento, chegámos a uma aldeia, onde pernoitámos.

Os militares avançaram de armas em punho e roubaram alguma comida à população; foi uma triste cena, mas enfim, agora queriamos era chegar a Gao.

A determinada altura, um miúdo veio ter connosco a perguntar se não queriamos cabrito grelhado – o Zé Mota disse que sim. Não tardou muito tempo e lá apareceu uns nacos de carne grelhada numa bacia azul. Do azul da bacia de plástico só se via algumas zonas, tal era o sujo ou negro da mesma, mas a fome era tanta que alguém teve a ideia de mandar apagar a luz de trabalho de um dos carros… Quando esta se acendeu nem ossos havia. O que faz a fome…

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Dia 3 de Abril de 1992

Bem cedo, a coluna militar partiu – desta vez, com os Toyotas cheio de militares em posição de combate e as “chaimites” sempre em acção.

Fomos avisados pelo Comandante da coluna que iriamos entrar em zona de guerra e, como tal, poderíamos ser atacados.

Foi a hora mais longa das nossas vidas, já que éramos carne para canhão em cima daquele Mercedes. Uma angústia do caraças. Foi quando pensei que ia desta para melhor. Os militares faziam autênticos jogos de guerra, estavam atentos e em permanente posição de combate, numa zona em que nós e eles eramos os alvos fáceis, já que andávamos por entre montes.

Bem… chegámos ao asfalto e a um controlo militar: estávamos em Gao.

Fomos para um Parque de Campismo, onde recomeçaram os contactos com o Governo, nomeadamente com a Presidência. Ao fim da tarde ficámos a saber que um avião C130 nos iria buscar a Gao.

Dia 5 de Abril de 1992

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Não sei bem se foi a 5 ou a 6 de Abril – só sei que num dia desses ao fim da tarde -, ouvimos um ronco por cima de nós e lá estava ele: o C130 com a bandeira portuguesa na janela.

Fomos de imediato para a pista de aviação e lá estava o C130 rodeado de GOEs, armados até aos dentes.

Foi carregar o pessoal e um UMM e pouco depois bazar dali a todo o gás.

Sei que voámos mais de uma hora a baixa altitude e que nos deram uma boa refeição quente. Por volta das 7H00 do dia 5 ou 6 de Abril, estávamos a aterrar em Figo Maduro.

Eu, de calções (os mesmos com que fiquei do 1º assalto), com os óculos partidos e uma camisa preta emprestada pelo “altamente, man” – o meu amigo Luís Vasconcelos, que hoje é editor de fotografia da Revista Visão.

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Tinha a Rosa Maria o Nuno e o Rui em casa, à espera.

Os que não vieram connosco, foram para Bissau e tiveram muitos problemas: apanharam malária, foram roubados e tiveram outros azares.

Foi uma aventura “do caraças”, e que alguns não conseguiram ultrapassar, mas o meu espírito de aventura continua, daí o Desafio Namíbia 2009 estar em marcha.

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O mais importante ficou aqui registado, e há coisas de que nunca me esquecerei:

  • o cheiro e as cores do mercado de Al Hoceima,
  • o oásis de Gardhaia, o seu Parque de Campismo e as suas 5 cidades na cidade;
  • o pão os belos cacetinhos de trigo;
  • os jantares de alcachofas com manteiga, algures nas dunas;
  • de ter comprado um frasco de brilhantina em Ouargia;
  • de ter comprado o meu bloco de notas diário em Gardhaia;
  • de, após o 2º assalto, ter recusado  beber água pela garrafa que passava de meia em meia hora pelo pessoal- mas quando a sede apertou, perdi os receios;
  • de ter saboreado aquela espécie de cabrito no escuro da noite já perto de Gao;
  • da viagem de canoa pelo Rio Niger, enquanto aguardávamos pelo avião;
  • do sabor das espetadas em Gao, pese embora a carne ser vendida na rua ao natural;
  • dos duches quentes em Gao, com água de tambor super aquecida pelo sol;
  • da imponência do Rio Niger e do volume do seu comércio;
  • de os homens andarem sempre de mão dada na rua;
  • do ronco do Hércules C130 sobre o parque de campismo;
  • dos nossos GOEs em posição de combate a volta do Hércules;
  • da cor da nossa bandeira;
  • do cantar dos parabéns ao Hélder Oliveira em plena viagem de C130;
  • da chegada a Figo Maduro e do cheiro de Portugal.

Para terminar, um agradecimento especial ao Doutor Mário Soares, Presidente da Repúplica na altura, pelo esforço diplomático que fez para chegarmos em segurança e por disponibilizar o Hércules C130. Um agradecimento, também, ao Doutor António Tânger, pelo empenhamento desde a primeira hora – desde a partida de Belém da nossa Expedição, até ao momento em que nos foram buscar a Gao.

Fico a dever esta a PORTUGAL.

Ao João Moutinho e ao Zé Mota, estejam onde estiverem, estarão sempre presentes na minha memória e amizade.

Antes do fim, o resto que fica para contar terá um FIM.

Gosto muito dos meus AMIGOS. Tenho muito ORGULHO neles.

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I EXPEDIÇÃO LISBOA A LUANDA EM TODO TERRENO – 1992 – CONTINUAÇÃO 3

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Pois é, continua a odisseia.

Dia 30 de Março de1992

Com o UMM do Pedro Coelho pronto, às 19.00 horas partimos de Tamanrassett, em direcção a fronteira da Argélia com o Mali, para a zona de ninguém, Tin Zawatine ou Ti-n-Zouatene, melhor para a zona dos bandidos armados.

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Com dificuldades em manter a coluna compacta e depois de 2 ou 3 controlos de polícia, decidimos dormir dentro dos carros em Abeibara.

A tensão era enorme, não só pelo que se tinha passado, como ir para a zona de ninguém, onde teríamos de andar qualquer coisa como 1200 kms, seja tinhamos de ter mantimentos e gasóleo para tudo.

Dia 31 de Março de 1992

Era uma terça-feira, lembro-me bem, se me lembro.

Alvorada às 5.00 horas da matina, arranque a todo o gás, passamos por Silet uma hora depois, qualquer coisa com uma média de 78 km/hora e continuamos em direcção a fronteira, lembro-me perfeitamente da pista nossa de horizonte a horizonte, mas com muito calhau, bués de pedras.

O pessoal colocou as máquinas a todo o gás, velocidade alucinante, tal era a adrenalina e eis que o António Marques, um dos médicos da caravana, bate com o seu Toyota , numa enorme pedra e quase que arranca o eixo da frente, seja a mola torceu toda e o amortecedor foi para o lixo.

Nada que não se resolvesse à Tuga, seja a martelada e a toque de guincho, mas uma coisa foi certa, aquilo foi ao sítio e deu para continuar.

Perto das 18.00 horas estávamos a 31 kms de Tin Zawatine, e encontramos mais 4 carros da nossa caravana. Seguimos uma pista pela esquerda e quando demos por nós os 5 ou 6 carros, vimos que estávamos na pista errada. Sem rádios ou qualquer outro tipo de comunicação e com a noite bem perto, esperamos, para se fazerem sinal de luzes, o que veio a acontecer.

Como tínhamos o camion junto de nós, lembro-me perfeitamente de ter jantado esparguete com almondegas, à rico ou seja à pala dos jornalistas.

O camion era um autêntico linho de jornalistas e fotógrafos. O pessoal do camion viajava em cadeiras de avião com o requinte todo e comia e bebia sempre bem, sempre comida quente e bebida boa, até café tinham.

Nesse dia, jantamos “a pato”.

Com um sentido de orientação extraordinário o Pedro Villas Boas veio ter connosco sozinho e levou-nos para junto do resto do grupo, isso às 3.00 horas da manha do dia 1 de Abril de 1992.

Dia 1 de Abril de 1992

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Alvorada bem cedo. e pelas 14.00 horas chegamos a fronteira da Argélia com o Mali.

Aqui reinou a grande dúvida, seja ou se avançava directamente, cruzando a fronteira para o Mali “a salto” ou seria mais prudente aguardar junto ao posto fronteiriço. Esta solução foi a que foi adoptada.

O posto fronteiriço da Argélia era um edifício moderno com água e luz de gerador, mas uma autêntico desterro, seja sem nada nem ninguém a menos de 900 kms. Mas o posto fronteiriço do Mali só ficava a uns 700 kms, mas depois conto como era.

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Chegados ao Posto Fronteiriço, toca de tratar das formalidades, só que estas, form muito complicadas, penso que 2 ou 3 dias, a torreira do sol, a sofrer uma pressão psicológica muito grande. Eramos interrogados por partes, um de cada vez, anotavam tudo e cada fez criavam mais problemas.

Era um pesadelo total, era exasperante, longe de tudo e de todos nas mãos de um chefe de alfandega, corrupto e mal encarado, mas nada a fazer.

O romance, sim o romance de longas horas e dias, começou logo de manhã, com os passaportes carimbados, passamos a âlfandega e quando iria ser despachado o último carro o chefe da alfândega, exige uma “namorada” , que lhe aliviasse 3 anos de “secura” do longo desterro neste confim do deserto argelino.

Usando de manha, rasura um dos passaportes e aí começa o forte jogo psicológico. Fulo, recolhe todos os passaportes e documentos dos carros e retém o pessoal sob um sol, abrasador, a água ia-se consumindo, mas o pessoal “os Tugas mantinham-se firme, “nas meninas ninguém toca“.

Insistíamos com ele e dizia que aguardava noticias de Argel, pondo contudo a prova os seus dotes de Don Juan, Porco era ele, não só de aspecto como de sujo. Era de tez escura, cabeço encaracolado e com a cara redonda de gordo.

Ao 2º dia às 10.00 horas da noite e devido ao nosso protesto, lá cedeu dando os passaportes e os documentos dos carros, sem contudo deixar de levar uns francos bem gordos dentro de cada passaporte.

Hoje pensamos que foram fatais o tempo da demora na passagem desta fronteira.

Entrar no Mali por Tin Zawatin era um risco elevado, porque a guerrilha Touaregue activa naquela altura a mais de 8 anos dominava as pistas do deserto, era muito perigoso passar aquela zona, era como jogar na lotaria.

Mas o lema era “Posso não voltar, mas vou sempre“, e fomos, mas iamos não voltando.

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Em Tamanrassett o cônsul do Mali, continua a conceder os vistos e garantia segurança até Gao, junto ao Rio Níger.

Como já referi o principal grupo de guerrilha Touaregue o MPA, tinha-nos dado garantia de segurança e protecção e enviou connosco um guerrilheiro.

Acontece porém que uma escolta do MPA, que estava do lado de Mali, ainda aguardou por nós um ou dois dias, mas o atraso na fronteira foi fatal e arrancaram sem nós.

Decidimos andar em coluna cerrada e só de noite e lá fomos nós até Tin Zawatine, onde chegamos pelas 8.00 horas da manhã.

Tin Zawatine era uma ladeia touaregue, junto a um velho e em ruinas forte francês. Para mal dos nossos pecados a escolta já tinha largado.

Ainda me lembro bem que tin Zawatine , tinha um oued seco e que as crianças cavavam buracos para encontrar água para beber.

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A partir daqui eramos só nós próprios. Estávamos entregues a NÓS PRÓPRIOS NO MEIO DO NADA. É aqui que os laços de amizade se reforçam.

Decidimos avançar, e uns 4 ou 5  kms depois num vale profundo, ladeado de uns montes, local propício a uma emboscada e voilá, ela em grande estilo, UMA EMBOSCADA.

Dia 2 de Abril de 1992

Emboscada, um momento de tensão máxima. Um comando militar, bem orientado, bem vestido com fardamento militar, dispara uns tiros para o ar com umas metralhadoras, manda-nos sair das viaturas e deitar no chão.

Mãos atrás da nuca, barriga na areia a escaldar, cara no chão e toca não mexer.

O tempo parece uma eternidade, a família, os amigos passam por nós a uma velocidade inquietante. Parece que estamos  a vê-los a fugirem é dramático.

O Comandante pede para falar com o responsável da caravana e explica o motivo do assalto.

São um Movimento de Luta de libertação da sua Terra, querem ser livres e como tal, um dos meios de pressionar o mundo era fazer este ataque, que de certeza iria ter o seu impacto.

Limpam os carros de todo o seu conteúdo e levam 11 jeeps, incluindo o nosso UMM, eu fico somente com uns calções vestidos  e descalço.

Despejaram tudo o que não queriam levar num grande monte e aconselharam o pessoal a levar uns sacos de dormir e aconselham a voltar para a Argélia.

Num ápice, salta tudo para o que é viatura e dois ou três minutos depois novas rajadas para o pessoal parar. Afinal temos de voltar e andar em direcção a Kidal, e esta terra só estava a uns 700 kms.

Bem, como disse o nosso UMM, tinha ido na 1ª leva e tinha ficado sem as gotas para os meus olhos – tinha feito um transplante de córnea à uns 2 meses – e como tal aproveitei para ir falar com o Comandante.

 O tipo de metralhadora na mão, viu que me dirigia a ele, perguntou o que queria, lá lhe expliquei, disse-lhe qual era o carro e pediu para ir com ele.

Aí é que a porca torceu o rabo, hesitei, mas quando vi o pessoal a andar, corri para um carro e bazei, porque senão ficava apeado.

Passado uns instantes lá vinha o Comandante num Range Rover azul que era do Filipe Oliveira, com a minha sacoche com as mais desejadas gotas.

Duas horas depois, o 2º assalto.

Dois bandoleiros de estrada bem armados, tinham no chão uma metralhadora num tripé e estavam junto a uma carrinha Mercedes de cor verde. Estavam junto a uma árvore rudimentar, a única naquele ermo de calhaus e areia. O aspecto deles era temeroso e tememos o pior. Eram só dois mas tinham uma metralhadora em posição de combate.

Desenquadrados e miseráveis davam sinais de um grande nervosismo, podendo matar a qualquer instante, foi horrível. Enquanto um ficou na metralhadora a apontar para o pessoal o outro dispôs-nos em linha virados para o outro.

Sacou todos os nossos bens, para um lençol ou pano branco, como eu não tinha nada para dar, já que só tinha oa calções vestidos, ele não acreditou um deu-me uma valente cronhada na barriga, barafustou bastante, mas uma coluna de pó ao fundo, fez acelerar o roubo. A humilhação profunda porque passamos foi demasiado pesada. No 1º assalto não fomos maltratados, aqui fomos humilhados, por dois bandidos, reles e porcos. Um deles era africano de raça negra e o outro berbere, tinha o cabelo em pé de tanto lixo, as suas mãos eram nojentas, os seus olhos brilhavam de pânico.

Quando partiram a acelerar no Mercedes, vimos então 5 ou 6 campas que se veio a saber mais tarde serem ou talvez não de uns turistas italianos que foram assaltados numa expedição recente.

Lembro-me de ainda ter tempo para subir para o camion para esconder umas doses de insulina do nosso médico oficial da expedição o Pedro Masson. Foi obra, daí se calhar ter contribuído para a cronhada.

Arrancamos e paramos de seguida era urgente falar para Lisboa. Mas também era perigoso parar porque andávamos a ser seguidos ao longe, víamos pelas nuvens de pó.

Falar para Lisboa, era importante, mas montar aquele telefone satélite, obrigava a montar todo o sistema, a ligar o gerador e como tal barulho um barulho diferente. Reunimos o pessoal e arriscamos.

Fazemos um círculo com as viaturas, montamos o material e a tensão sobe, para a primeira ligação eram necessários 5 a 10 minutos, eu no cimo do camion controlava ao longe a nuvem de poeira com uns binóculos, mas tinhamos de arriscar e eis que do meio do nada estavamos a falar para a Presidência da República.

Lançamos então o 1º pedido dramático de socorro, pedimos auxílio, e só o facto de com aquele telefone nos termos ligado ao mundo nos tornamos menos indefesos.

O Presidente Mário Soares, lança um pedido de ajuda internacional, liga ao Presidente Mitterrand, que por sua vez solicita ao Presidente do Mali o envio de uma coluna militar para vir ao nosso encontro, mas faltava chegar a Kidal.

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Notavelmente coeso e sereno o grupo estava pronto para tudo, até para um terceiro assalto, este caricato.

Lá íamos nós na nossa viagem para Kidal, quando se junta a nós um tractor DAF, com matrícula italiana, acompanha-nos por mais de 150 kms, quando de repente nos ultrapassa e mais a frente para e se coloca de frente para nós.

São dois homens Touaregues e uma criança, um dos homens com uma metralhadora.

 Pedem-nos mais um jeep, e mandamos o pior. Nessa altura aprendi um truque, bem importante. O truque  consistia em retirar de um dos esguichos do limpa vidros o tubo e apontá-lo para o motor de forma discreta.

Ao haver um assalto, por norma levam os melhores carros, e assim sendo ao esguichar para cima do motor isso quereria dizer que este aquecia, já que se produzia vapor de água. E isto resultou e de que maneira, daí o Santos Pêras não ter ficado sem o seu UMM.

Bem de tão caricato ter sido o 3º assalto que os homens, aconselharam-nos a mudar de pista, já que aquela era uma rota de  assaltos. Levaram-nos para pista segura e pernoitamos já perto de Kidal. Ninguém dormiu, toda a gente via bandidos em todo o lado.

O silêncio era absoluto naquele acampamento. Queria era chegar a Kidal.

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I EXPEDIÇÃO LISBOA A LUANDA EM TODO TERRENO – 1992 – CONTINUAÇÃO 2

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Dia 25 de Março de 1992
Pois é, cá vou continuar agora que me decidi a isso.
Como já referi a tempestade de areia fez das suas, houve pessoal que optando por uma rota diferente, criou problemas ao Villas Boas e ao retso do pessoal.
A anarquia era tal que após longas horas de tempestade em que se cozinhava dentro do UMM, e até se dormia, de manhã quando aimainou lá estava bem perto de nós o Pedro Coelho, que se tinha sumido.
Acontece porém que devido ao cansaço, combinou-se que o pessoal deveria encontrar-se em Hassi Bel Guebbor, um povoado com uma rua asfaltada com uns 100.00mts, uma bomba de combústivel, uma “loja” a qual tinha acoplado um gerador que roncava que se fartava.
Dizia o mapa Michelin que alí havia um ponto de “eau mauvaix”, bom mas era água e era isso que interessava, pese embora ser sulfurosa, até a pele “limpava”, Lembro-me perfeitamente de lavar a cara e aquilo ardeu “prachuchu”, mas não havia mais nada.
Mas antes disso como referi o pessoal devria reagrupar a caravana em Hassi Bel Guebbor que ficava a uns 30 kms, foi-nos dado o rumo e toca andar até ao asfalto.
Até ao asfalto tudo bem, mas ao entrar no asfalto, viramos a direita e toca andar a prego a fundo, só que era para a esquerda, mas só notamos quando chegamos a Bord Omar Driss a uns 30 kms.
Aproveitamos para atestar os dois tanques do UMM, levava 2×80 litros em dois depósitos, e foi a loucura , sempre prego a fundo, tão a fundo que numa curva apertada e com o UMM super carregado iamos indo por um desfiladeiro abaixo, não fosse o Zé Metello um bom condutor.
Chegamos junto do resto da caravana e foi a alegria total, pese embora o grande raspanete do Villas Boas.
Bem, mas não foi tudo mau, comemos todos cabrito grelhado a moda Touaregue, bem bom, pudera não havia mais nada.

Montamos a tenda, não os “burros” e foi descansar porque ao nascer do sol, tinhamos de bazar.

Queria dizer que devido aos atrasos nas fronteiras, as etapas tinham em média 700 kms.

Dia 26 de Março de 1992

Saímos de Hassi Bel Guebbor bem cedo, porque o dia ia ser duro, fomos por alcatrão até ao cruzamento dos “4 Chemins”, ponto importante de várias rotas, este nome ainda hoje não sai da minha memória e vou por lá imensas vezes com os olhos fechados, ainda hoje conseguia lá ir sem GPS ou mapa.

Entramos pela esquerda, avançamos uns 20 kms a rumo 180º e depois inflectimos para a esquerda e lá fomos nós, prego a fundo, entregues a nós e ao Villas Boas, que só se orientava por mapa, bússola e régua de escalas, era impressionante, nunca vi nada igual, um bom navegador.

A pista era dura, muito dura, o ritmo era impressionante, era preciso chegar a Tamanrassett.

Mas comos sempre a pressa é inimiga  e o nosso amigo “Pavarotti”, de manhã a atestar o UMM com óleo, esqueceu-se de apertador a tampa do óleo e o nosso UMM, chupou tanta areia que poliu os pistons e começou a deixar muito fumo. Mas nada que não se resolvesse, pendurou-se pela frente o UMM ao camion Mercedes e toca de levar o bicho até Tamanrassett.

Com estes imprevistos acabamos por dormir algures perto de uma duna como sempre. Fizemos uma boa jantarada, beberam-se uns copos de tinto.

Dia 27 de Março de 1992

Alvorada as 5.00 horas da matina, em direcção de Amiguid, seja fizemos numa pista dura 70 kms numa 1.10 horas, foi obra pessoal. Atestamos os carros e partimos para mais 70 kms onde paramos para reagrupar a caravana.

Dia 28 de Março de 1992

Só hoje é que chegariamos a Tamanrassett, que de agora em diante será “Taman”.

Chegamos à meio da tarde, pelas 15.30 horas.

A cidade era imponente, moderna, com muita cor e energia, tal como eu a idealizava, uma cidade a entrada do deserto às “Portas do Deserto”.

Fomos para um Parque de Campismo moderno, com boas instalações, um restaurante razoável e bons wcs.

Montamos a tenda, arrumanos o material, reapertamos e lubrificamos o UMM, mudamos os filtros e fomos tomar o 1º banho em 11 dias.

Aproveitei para lavar a roupa, arrumar bemtoda a comida e reabastecer os stocks de água e combustível, seja os 160 litros dos depósitos mais 160 litros dos jerricans.

A noite fomos comer ao Restaurante, frango assado com salada e mousse de camelo, e pagamos somente 120 dinares, pouca coisa.

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Dia 29 de Março de 1992

Como o tempo era de descanso, fomos tomar eu e o Zé Metello, o pequeno almoço ao Restaurante, seja café, leite de camelo e manteiga, tudo a maneira.

Fui a cidade a pé, visitar o mercado, comprar um postal para mandar para a Rosa Maria e fui aos correios .

Mas como tudo não é perfeito, a cidade era um ninho de polícias a civil, que controlavam tudo, passavam o tempo a pedir o passaporte, a ver se cambiavamos dinares a socapa, enfim.

Era tanto “bufo” que decidimos voltar ao Parque de campismo.

Almoçamos no Restaurante, Briques a Tunisiene e bifes grelhados de camelo com batatas fritas.

Pois é, mas o pior estava para acontecer. Como os “Bufos” estavam em todo o lado, eis que o José Manuel Fernandes do Jornal o “Público”, decide montar o telefone satélite que era uma coisa enorme, que dava uma trabalheira enorme a montar, pois tinha um inclinação de acordo com as coordenadas geográficas. Eis que de repente, um dos “Bufos” que estava no Parque e que para nós era um vigilante, avança e prende o Zé Manuel, vem um carro que recolhe o telefone satélite e vai tudo para o Posto da Gendarmerie.

O Zé Manuel, sofre um interrogatório violento, os nossos carros são revistados mais que uma vez, mas depois de tanta preocupação pelas 2,30 horas lá chega o Zé Manuel e o UMM do Portela que também teve problemas na cidade.

Como o UMM do Pavarotti, vinha pela assistência em viagem, decidimos canibalizar o UMM, retirando todas as peças do motor que pudessem servir, como bomba de água, bomba de óleo, sei lá bués.

Entretanto durante a tarde o Villas Boas, encetou a contratação de um Guia Touaregue que nos levaria “em segurança” até Gao, já que iriamos entrar numa “Terra de Ninguém”, numa terra de guerilha , numa terra de bandidos armados.

No briefing das 21.00 horas, o Pedro Villas Boas decidido, alertou o pessoal que era urgente sair de Tamanrassett, mas só saímos de lá pelas 19.00 horas do dia seguinte, porque houve problemas no carro do Pedro Coelho, que teve de ser desmontado e montado o motor várias vezes.

A coisa estava a ficar preta, tão preta que o Pocas decidiu voltar para Portugal.

A tensão aumentava na caravana, a polícia insistia em aborrecer o pessoal e nós a espera do Guia, do Guia do embuste, como se viria a constatar mais tarde.

Para terminar este dia queria dizer, que Tamanrassett deve ser o maior posto avançado de venda de carros de luxo roubados na Europa, todos topo de gama que era transaccionados logo de manhã no Parque de Campismo e iam directos para o Niger e Tchad.

Até breve.

Tenho bons amigos desde essa altura.

I EXPEDIÇÃO LISBOA A LUANDA EM TODO TERRENO – 1992 – CONTINUAÇÃO 1

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Pois é, ando a anos a tentar relatar a minha viagem de sonho, mas não tenho conseguido.

Pois é, ainda hoje não consigo entender esta minha negação em partilhar esta viagem interrompida algures entre o Mali e a Argélia.

Pois é, quantas vezes dou por mim a pensar nos desafios que enfreitei, longe de tudo e de todos em terra de ninguém.

Pois é, quantas vezes, leio e releio tudo o que tenho cá por casa e no meu diário de viagem que religiosamente guardo entre os meus livros.

Poís é, sou eu sei o que me leva a esbarrar na escrita de tão desejada Expedição, de 33 dias e 10990 Kma se tudo corresse bem.

Pois é, ainda me lembro como se fosse hoje, a alegria que tinha em voltar a minha terra, 17 anos depois e pela melhor via, por todo Terreno,mesmo depois de ter feito um transplante de córnea a menos de 60 dias.

Poís é, preparei tudo ao pormenor, patrocínios, material para o UMM, comida, roupa, medicamentos, tudo para 40 dias.

Pois é, só não anotei nos mapas, vários, as zonas de assalto, que foram 3, todos com os mais diversos estilos.

Pois é, será hoje que vou escrever, espero que sim, porque hoje já é a 4ª tentativa.

Pois é, mas a morte recente do João Moutinho, homem forte do Geoclube do Porto, o Português mais Marroquino, e que deixou ficar um livro a aguardar que uma editora o publique, é que me levou em sua homenagem a fazê-lo agora.

JOÃO MOUTINHO JUNTO DO SEU INSEPARÁVEL TOYOTA

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Pois é, aviso que não vou “editar” o texto, vai sair livre aberto, porque não quero perder tempo com isso, porque tenho medo de um”reset”.

Pois é, aqui vai.

Dia 18 de Março de 1992:

Com uma partida junto a Torre de Belém e com toda a popa e circunstância lá fomos nós, 24 Todo Terreno, um camião 6×6 e seis motas, ao todo o lindo número de 69 valentes e audazes participantes.

Com uma saída programada para 8.00 horas, só ao fim do dia é que zarpamos, porque os vistos para entrar em Angola népia, só com múltiplos contactos foi possível consegui-los.

A euforia e o entusiasmo do pessoal, sobrepunha-se aos medos. O fascínio de África e da Expedição sobrepunha-se aos medos e as incertezas do regimes instáveis, mas o que queriamos mesmo era ir, mesmo que não voltassemos.

Lembro-me perfeitamente de um facto que me marcou, foi ter aberto a circulação nesse dia a Ponte sobre o Rio Guadiana em Vila Real de Santo António.

Com as indecisões da partida e o arranca , espera, arranca, o pessoal que iria em caravana, foi cada um por si, anarquia total.

Nós só paramos  a entrada de Algeciras numa bomba da Shell deveria ser umas 2 ou 3 da manhã. Aí conhecemos  e desenrascamos o José Manuel Fernandes, que hoje é Director do Jornal o Público que ia com o Luís Vasconcelos, editor de fotografia do mesmo Jornal, um tipo porreiro, “altamente”, maluco como todos os fotógrafos de guerra e tinha bués delas no lombo.

Acontece que os mans do Público só funcionavam com cartões de crédito e népia para pagar o gasóleo, e como sempre lá estava o pessoal da Lousã para “entrar”, nada que não se resolvesse.

Lá fomos todos para um Parque de Campismo, bués de velho, penso que se chamava “Valira”. Alugamos um bungalows, para o banho, porque tinhamos de apanhar o barco as 7.00 horas da matina, eis quando, abro o chuveiro e para além de cair o velho chuveiro de “crivos de pregos”, em cima da tola, jorra uma aguada vermelha de ferrugem. Lá panhamos o ferry e eis aventura .

Dia 24 de Março de 1992:

Depois das dificuldades dos 1ºs dias, em que houve que vencer as habituais burocracias fronteiriças de Marrocos e da Argélia, e depois de uma dormida num acolhedor Parque de Campismo de Tlemecen, eis-nos nas Pista do Deserto. Para trás ficavam as estradas esburacadas, os mercados coloridos, as paisagens das cidades-oásis.

A cidade argelina de Ghardaia era uma beleza, tinha um excelente oásis e um Parque de Campismo do melhor.

A recepcção tinha bués de autocolantes de expedições de portugueses e o nosso também lá ficou, seja era uma exigência do man do Parque.

A partir de El Golea, pela frente só nos tinhamos a nós próprios e a imensidão de uma paisagem de areia, de rochas e de pó.

Como é usual, levantar ao nascer do sol, andar sem parar todo o dia, almoçar em andamento e parar ao pôr do sol. Nunca deixar de ver o carro de trás no retrovisor, e assim sendo, corre tudo bem.

Para um neófito do deserto como eu, as primeiras dunas cor-de-rosa, os primeiros “oueds”, as rectas sem fim sem que as paisagens se modifique.

Ainda me lembro que depois de atestar os carros em El Golea, andamos uns 10 kms em asfalto e o Villas Boas, vira a esquerda rumo 180º graus para o horizonte, qualquer coisa como para nascente. Posso dizer que nessa altura estava a escurecer e o pessoal deixou de usar a técnica do retrovisor e aí sentimos quanto é de respeitar o deserto.

Andamos uns 30 kms até ao sopé de uma grande duna, e foi a festa total, um corropio de sobe e desce.

Jantamos uma boa refeição quente e aí começou mesmo a aventura, forte, fraterna e frágil como se veria mais tarde.

Melhor, só mesmo quando o sol  começa a baixar e as cores mudam, quando é altura de procurar uma duna para montar o acampamento, a tensão, inevitável numa longa caravana- em que é necessário manter o ritmo da viagem e para ninguem se perca-, esvai-se rapidamente, dando lugar a um ambiente descontraído e repousado. Os melhores momentos, as grandes amizades criam aqui, nunca mais se esquecem.

São estes os momentos em que o grupo se conhece, se travam amizades e se estabelecem relações de colaboração.

O deserto e as condições da expedição igualam os membros da expedição, tornando-as mais solidárias, sejam eles de que classe social forem, ali cantamos de igual para igual.

Esta noite seria uma das mais calmas e mágicas da expedição, porque ninguem previa o que iria acontecer nos próximos dias.

Sim porque o Pocas – para os amigos- e Cristovão Leitão para os outros lembrou-se de “partir” a caravana e partir em rumo diferente, era o único que tinha um instrumento que se chamava GPS, que tinha uma “chaminé” branca por cima do UMM. O rumo seria a cidade mais meridional da Argélia, a entrada do maior e mais temidos dos desertos o Tenerée, seja Tamanrasette. No entanto apanhamos uma bruta tempestade de areia que obrigou a paragem da caravana, porque faltava um carro, o UMM do Pedro Coelho. O Pedro Coelho tinha-se atrasado e com a tempestade de areia não nos viu. Paramos e depois de quase 24 horas de areia e pó , quando tudo passou ele e a esposa estavam a uns escassos 100 metros de nós, só a sua experiência em expedições o levou a parar, porque se tem continuado não saberiamos o que poderia ter acontecido, porque não andavamos em qualquer pista.

Desde sempre e não sei porquê Tamanrasette, me chamou a atenção. Depois de lá ficar uns 4 ou 5 dias entendi porquê., é um berço de culturas, de raças, de negócios e de cruzamento de rotas.

Até breve.

Tenho bons amigos desde essa altura.