FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 8.º

Depois de mais de dois meses de viagem a solo na Maxi Puch, até ao Deserto do Namibe, a etapa entre a Quibala e o Dondo foi memorável.
Bem cedo, saí da Quibala, depois de pernoitar numa das bombas de Combustível que por lá havia. Quibala era uma espécie de entreposto dos camionistas nas suas longas viagens, pois era sempre possível comer uma refeição quente.
Bem cedo, pois a Maxi Puch, não dava mais de 50 Km/hora e a marcha indicada era os 40 Kms/hora.
Era já de noite quando cheguei ao Dondo, e não era aconselhável por questões de segurança avançar para Luanda, já que a zona entre o Golungo-Alto e Catete, era muito perigosa, já que na altura era área de guerrilha do MPLA.
Depois de comer qualquer coisa, num dos bancos existentes junto a igreja, era preciso dormir e aonde? Guito, não havia, e nada melhor que entrar pela porta lateral da igreja e dormir num dos bancos corridos junto a pia baptismal. Mas, o pior foi quando já passava da meia-noite e a Polícia corre comigo do interior da igreja e me dá ordem de marcha. Seriam umas três da manhã, pelo que decidi avançar para o Golungo-Alto, onde havia uma estação de Caminho de Ferro e um aquartelamento. Continuar a ler “FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 8.º”

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 7.º

O que as televisões têm passado de imagens da Guerra no norte do Mali, levam a Abril de 1992, onde na mesma zona, bandos armados nos emboscaram e assaltaram por duas vezes.
Reconheci, nessas imagens algumas alguns dos edifícios de Kidal e de Gao, nomeadamente o aeroporto.
Essas imagens transportam-me a lembranças de terror e medo, porque não, numa zona de ninguém cuja área é quase 3 vezes superior à da França, onde quase nada vive ou subsiste.
Assim, naquele dia 2 de Abril de 1992, saímos bem cedo do acampamento, pela calada da madrugada… penso que até os motores falavam baixinho, tal era o cagaço de mais um assalto ou da liquidação total.
Tomamos uma direcção errada, o que nos levou a andar mais para a esquerda quando deveria ser um rumo mais a norte. Chegamos a Kidal, ao final da manhã, depois de quase 600 kms de terra de ninguém sempre a espera do pior. Felizmente nada nos aconteceu e ao longe aparece um aglomerado de casas da cor da terra, onde fora da “cidade”, se destacava uma construção com uns 4 m2, parcialmente coberta com uma chapa, uma pequena mesa e um assento de camioneta a servir de cadeira. Esta construção era o Posto Fronteiriço, que ficava a cerca de 1200 kms de Tin Zouatine, onde ficava o Posto Argelino.
Depois de uma longa à espera, aparece um soldado com arma à cinta, casaco camuflado, calções e chinelos. Sem problemas, carimba os passaportes e avisa-nos que a coluna militar que garante a segurança do pessoal até Gao sairia às 13.00 horas. O tempo estava quase a queimar, mas mesmo assim ainda deu tempo para beber uma gasosa numa espécie de mercearia.
No meio de Kidal havia um poço, enorme em diâmetro, onde estava parte da população numa longa fila com bacias e baldes para enchimento. Quando a escolta militar avança, fixo um edifício que tinha um letreiro que dizia, “Casa da Justiça de Kidal”……

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 6.º

A data é o que menos interessa, talvez a sua situação no tempo seja uma referência.
Século passado, início dos anos 60, muito longe daqui, na costa ocidental de um continente irmão. Tinha 8 anos de idade.
Um dia normal como os outros para quem morra no subúrbio de uma grande cidade, seja para quem mora num Musseque, onde reinava afinal uma calma aparente.
Ao final da tarde desse dia, o êxodo diário da população que regressa aos Musseques do Marçal, Rangel, Sambizanga, foi diferente, mais apressado, quase que como um recolher obrigatório.
Mas quando a noite caiu, fez-se silêncio e cerca das nove horas da noite começou a metralha.
O Musseque do Marçal na sequência da tomada de assalto da Cadeia dos Presos Políticos, fica em polvorosa e era necessário buscar um lugar seguro.
Depois cerca da meia noite, quando os disparos se tornaram menos intensos, foi possível ir a rastejar, eu e a minha mãe para o Bairro do Teixeira, logo ali onde começa o asfalto e a areia vermelha do Musseque Marçal.
O Musseque Marçal nunca mais foi o mesmo, porventura com montes de razão pelo antes e pelo se passou depois.
Ainda hoje na minha memória desenho em pensamento os becos apertados, as “casas” de barro e chapa de zinco dos meus amigos, e todos os dias de lembro das passeatas de “Rudge” até ao longínquo Rangel para estudar com amigos da escola 147.
Memórias para sempre…………………………………………………………….

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 5.º

Baixa de Cassange, Angola 1964(5)

A Baixa de Cassange era uma das mais importantes zonas para o cultivo de algodão, controlada pela Cotonang. Era uma importante depressão com mais de 80 000 km2, com forte apetência para o cultivo de algodão. Segundo relatos da zona o nº de agricultores era superior a 30 000.

Milundo, era um posto administrativo mais avançado numa zona com fortes consulções da era da Guerra Colonial, mas isso agora não interessa para aqui.

O Posto de Milundo, era uma enorme casa branca numa zona em que a água brotava a jorro da terra, era impressionante ainda hoje me lembro de ver a areia quase que a ser expulsa pela água de buracos de formiga.

O soba da zona, tinha convencido o meu cunhado a fazer uma caçada a noite, com a ajuda de uma grande queimada de modo a cercar as pacaças, palancas ou antílopes.

Ao final da tarde o Land Rover Série II 88, ainda com os faróis no meio, passava para as minhas mãos e o farolim não parava de rodar em busca de uns olhos brilhantes no meio do mato.

Quase a noite os homens de Milundo, com arcos de flechas, sandálias de mato entrançado ou de sola de um velho pneu,  corriam num grande círculo com vários hectares lançando uma grande queimada, para espantar a caça.

Outros, armados com lanças e arcos com flechas com veneno, procuravam todo o tipo de caça para alimentar a as populações.

Quase ao raiar da manhã, acabava a caçada, controlado que estava a queimada e dividia-se a caça, que era recolhida no capot do Land Rover em mais de uma viagem.

Durante a queimada/caçada eram cantados cânticos, batiam com as pernas no chão com anéis de metal para o barulho ser maior, para espantar a caça.

A Baixa de Cassange foi em 1961, alvo de umas maiores “massacres” da população, por terem na altura, feito greve a plantação de algodão o que marcou a Baixa de Cassange com um dos símbolos da resistência.

Lousã, 49 anos depois….

FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 4.º

1992, Fort Miribel (Argélia)

O Mapa Michelin 953, indicava um tracejado vermelho muito miudinho e nos extremos duas barras verticais o que em termos internacionais de mapas quer dizer “Piste Interdite”. Ao final da tarde fizemos uma incursão a partir de El-Golèa às fraldas do Grand Erg Oriental, onde pernoitamos. Esta aventura criou-nos um misto de emoções e receios, já que a longa caravana permitia ver ao longe os  pequenos faróis das luzes vermelhas do 4×4. Só tínhamos um rumo de bússola e foi andar até chegar ao Erg.

Mas as verdadeiras pistas começavam a partir de Fort Miribel, cerca de 300 kms de uma pista interdita e demolidora até Hassi Bel Guebbour.

O Fort Miribel não era mais que umas ruínas de um Forte construído em 1894, tendo sido abandonado em 1903 com essa função. De 1903 até 1930, serviu de entreposto automóvel. Essa última função era bem visível no resto de peças carcaças de automóveis. Lembro-me de ver inúmeros amortecedores torcidos e partidos.

A partida de Fort Miribel, foi bem cedo depois de termos retomado de madrugada a estrada nacional de El-Goléa a In Salah. A caravana compacta tinha indicações rigorosas para se cumprir a norma “Ter sempre o carro de trás no retrovisor”. Esta técnica permitia manter a caravana compacta e ganhar tempo. Um dos UMM ( da 1ª geração), tem a 1.ª avaria com um tubo de travões rebentado. Vinca-se o tubo e retomamos a longa viagem. A meio do percurso apanhamos um dos primeiros destroços do Paris Dakar, quando ainda passavam pela Argélia. Diziam alguns entendidos que era os restos do Range Rover de fábrica de Patrick Zaniroli. Aproveitou-se para com cuidado retirar o tubo dos travões para mais tarde substituir no UMM. Mas a frente os restos de uma KTM de que só resta o quadro e as rodas, tudo sem ponta de ferrugem, devido à ausência de humidade do ar. Mais a frente encontramos as primeiras caravanas de Tuaregues com os camelos carregados de produtos para o norte do Niger.

A meio da tarde a coisa complica-se, uma violenta tempestade de areia está sobre a caravana, não se vê nada ou quase nada, a velocidade reduz-se drasticamente e a determinada altura nem os faróis vermelhos são visíveis. A areia entra por todo o lado e a caravana para. As viaturas encostam umas as obras e contam-se os 4×4. Conta-se uma vez e reconta-se, e confirma-se a falta de um UMM de cor vermelha com um casal, já com alguma experiência em Expedições para a Guiné e Argélia. O pessoal das motas, tem um trabalho heróico, fazendo incursões com saídas perpendiculares aos 4×4 e voltando numa tentativa de encontrar o UMM. A tempestade continua, a areia invade todos os poros está insuportável, o checehe dá uma ajuda. Continuar a ler “FRAGMENTOS DE MEMÓRIAS – 4.º”