I EXPEDIÇÃO LISBOA A LUANDA EM TODO TERRENO – 1992 – CONTINUAÇÃO 3

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Pois é, continua a odisseia.

Dia 30 de Março de1992

Com o UMM do Pedro Coelho pronto, às 19.00 horas partimos de Tamanrassett, em direcção a fronteira da Argélia com o Mali, para a zona de ninguém, Tin Zawatine ou Ti-n-Zouatene, melhor para a zona dos bandidos armados.

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Com dificuldades em manter a coluna compacta e depois de 2 ou 3 controlos de polícia, decidimos dormir dentro dos carros em Abeibara.

A tensão era enorme, não só pelo que se tinha passado, como ir para a zona de ninguém, onde teríamos de andar qualquer coisa como 1200 kms, seja tinhamos de ter mantimentos e gasóleo para tudo.

Dia 31 de Março de 1992

Era uma terça-feira, lembro-me bem, se me lembro.

Alvorada às 5.00 horas da matina, arranque a todo o gás, passamos por Silet uma hora depois, qualquer coisa com uma média de 78 km/hora e continuamos em direcção a fronteira, lembro-me perfeitamente da pista nossa de horizonte a horizonte, mas com muito calhau, bués de pedras.

O pessoal colocou as máquinas a todo o gás, velocidade alucinante, tal era a adrenalina e eis que o António Marques, um dos médicos da caravana, bate com o seu Toyota , numa enorme pedra e quase que arranca o eixo da frente, seja a mola torceu toda e o amortecedor foi para o lixo.

Nada que não se resolvesse à Tuga, seja a martelada e a toque de guincho, mas uma coisa foi certa, aquilo foi ao sítio e deu para continuar.

Perto das 18.00 horas estávamos a 31 kms de Tin Zawatine, e encontramos mais 4 carros da nossa caravana. Seguimos uma pista pela esquerda e quando demos por nós os 5 ou 6 carros, vimos que estávamos na pista errada. Sem rádios ou qualquer outro tipo de comunicação e com a noite bem perto, esperamos, para se fazerem sinal de luzes, o que veio a acontecer.

Como tínhamos o camion junto de nós, lembro-me perfeitamente de ter jantado esparguete com almondegas, à rico ou seja à pala dos jornalistas.

O camion era um autêntico linho de jornalistas e fotógrafos. O pessoal do camion viajava em cadeiras de avião com o requinte todo e comia e bebia sempre bem, sempre comida quente e bebida boa, até café tinham.

Nesse dia, jantamos “a pato”.

Com um sentido de orientação extraordinário o Pedro Villas Boas veio ter connosco sozinho e levou-nos para junto do resto do grupo, isso às 3.00 horas da manha do dia 1 de Abril de 1992.

Dia 1 de Abril de 1992

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Alvorada bem cedo. e pelas 14.00 horas chegamos a fronteira da Argélia com o Mali.

Aqui reinou a grande dúvida, seja ou se avançava directamente, cruzando a fronteira para o Mali “a salto” ou seria mais prudente aguardar junto ao posto fronteiriço. Esta solução foi a que foi adoptada.

O posto fronteiriço da Argélia era um edifício moderno com água e luz de gerador, mas uma autêntico desterro, seja sem nada nem ninguém a menos de 900 kms. Mas o posto fronteiriço do Mali só ficava a uns 700 kms, mas depois conto como era.

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Chegados ao Posto Fronteiriço, toca de tratar das formalidades, só que estas, form muito complicadas, penso que 2 ou 3 dias, a torreira do sol, a sofrer uma pressão psicológica muito grande. Eramos interrogados por partes, um de cada vez, anotavam tudo e cada fez criavam mais problemas.

Era um pesadelo total, era exasperante, longe de tudo e de todos nas mãos de um chefe de alfandega, corrupto e mal encarado, mas nada a fazer.

O romance, sim o romance de longas horas e dias, começou logo de manhã, com os passaportes carimbados, passamos a âlfandega e quando iria ser despachado o último carro o chefe da alfândega, exige uma “namorada” , que lhe aliviasse 3 anos de “secura” do longo desterro neste confim do deserto argelino.

Usando de manha, rasura um dos passaportes e aí começa o forte jogo psicológico. Fulo, recolhe todos os passaportes e documentos dos carros e retém o pessoal sob um sol, abrasador, a água ia-se consumindo, mas o pessoal “os Tugas mantinham-se firme, “nas meninas ninguém toca“.

Insistíamos com ele e dizia que aguardava noticias de Argel, pondo contudo a prova os seus dotes de Don Juan, Porco era ele, não só de aspecto como de sujo. Era de tez escura, cabeço encaracolado e com a cara redonda de gordo.

Ao 2º dia às 10.00 horas da noite e devido ao nosso protesto, lá cedeu dando os passaportes e os documentos dos carros, sem contudo deixar de levar uns francos bem gordos dentro de cada passaporte.

Hoje pensamos que foram fatais o tempo da demora na passagem desta fronteira.

Entrar no Mali por Tin Zawatin era um risco elevado, porque a guerrilha Touaregue activa naquela altura a mais de 8 anos dominava as pistas do deserto, era muito perigoso passar aquela zona, era como jogar na lotaria.

Mas o lema era “Posso não voltar, mas vou sempre“, e fomos, mas iamos não voltando.

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Em Tamanrassett o cônsul do Mali, continua a conceder os vistos e garantia segurança até Gao, junto ao Rio Níger.

Como já referi o principal grupo de guerrilha Touaregue o MPA, tinha-nos dado garantia de segurança e protecção e enviou connosco um guerrilheiro.

Acontece porém que uma escolta do MPA, que estava do lado de Mali, ainda aguardou por nós um ou dois dias, mas o atraso na fronteira foi fatal e arrancaram sem nós.

Decidimos andar em coluna cerrada e só de noite e lá fomos nós até Tin Zawatine, onde chegamos pelas 8.00 horas da manhã.

Tin Zawatine era uma ladeia touaregue, junto a um velho e em ruinas forte francês. Para mal dos nossos pecados a escolta já tinha largado.

Ainda me lembro bem que tin Zawatine , tinha um oued seco e que as crianças cavavam buracos para encontrar água para beber.

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A partir daqui eramos só nós próprios. Estávamos entregues a NÓS PRÓPRIOS NO MEIO DO NADA. É aqui que os laços de amizade se reforçam.

Decidimos avançar, e uns 4 ou 5  kms depois num vale profundo, ladeado de uns montes, local propício a uma emboscada e voilá, ela em grande estilo, UMA EMBOSCADA.

Dia 2 de Abril de 1992

Emboscada, um momento de tensão máxima. Um comando militar, bem orientado, bem vestido com fardamento militar, dispara uns tiros para o ar com umas metralhadoras, manda-nos sair das viaturas e deitar no chão.

Mãos atrás da nuca, barriga na areia a escaldar, cara no chão e toca não mexer.

O tempo parece uma eternidade, a família, os amigos passam por nós a uma velocidade inquietante. Parece que estamos  a vê-los a fugirem é dramático.

O Comandante pede para falar com o responsável da caravana e explica o motivo do assalto.

São um Movimento de Luta de libertação da sua Terra, querem ser livres e como tal, um dos meios de pressionar o mundo era fazer este ataque, que de certeza iria ter o seu impacto.

Limpam os carros de todo o seu conteúdo e levam 11 jeeps, incluindo o nosso UMM, eu fico somente com uns calções vestidos  e descalço.

Despejaram tudo o que não queriam levar num grande monte e aconselharam o pessoal a levar uns sacos de dormir e aconselham a voltar para a Argélia.

Num ápice, salta tudo para o que é viatura e dois ou três minutos depois novas rajadas para o pessoal parar. Afinal temos de voltar e andar em direcção a Kidal, e esta terra só estava a uns 700 kms.

Bem, como disse o nosso UMM, tinha ido na 1ª leva e tinha ficado sem as gotas para os meus olhos – tinha feito um transplante de córnea à uns 2 meses – e como tal aproveitei para ir falar com o Comandante.

 O tipo de metralhadora na mão, viu que me dirigia a ele, perguntou o que queria, lá lhe expliquei, disse-lhe qual era o carro e pediu para ir com ele.

Aí é que a porca torceu o rabo, hesitei, mas quando vi o pessoal a andar, corri para um carro e bazei, porque senão ficava apeado.

Passado uns instantes lá vinha o Comandante num Range Rover azul que era do Filipe Oliveira, com a minha sacoche com as mais desejadas gotas.

Duas horas depois, o 2º assalto.

Dois bandoleiros de estrada bem armados, tinham no chão uma metralhadora num tripé e estavam junto a uma carrinha Mercedes de cor verde. Estavam junto a uma árvore rudimentar, a única naquele ermo de calhaus e areia. O aspecto deles era temeroso e tememos o pior. Eram só dois mas tinham uma metralhadora em posição de combate.

Desenquadrados e miseráveis davam sinais de um grande nervosismo, podendo matar a qualquer instante, foi horrível. Enquanto um ficou na metralhadora a apontar para o pessoal o outro dispôs-nos em linha virados para o outro.

Sacou todos os nossos bens, para um lençol ou pano branco, como eu não tinha nada para dar, já que só tinha oa calções vestidos, ele não acreditou um deu-me uma valente cronhada na barriga, barafustou bastante, mas uma coluna de pó ao fundo, fez acelerar o roubo. A humilhação profunda porque passamos foi demasiado pesada. No 1º assalto não fomos maltratados, aqui fomos humilhados, por dois bandidos, reles e porcos. Um deles era africano de raça negra e o outro berbere, tinha o cabelo em pé de tanto lixo, as suas mãos eram nojentas, os seus olhos brilhavam de pânico.

Quando partiram a acelerar no Mercedes, vimos então 5 ou 6 campas que se veio a saber mais tarde serem ou talvez não de uns turistas italianos que foram assaltados numa expedição recente.

Lembro-me de ainda ter tempo para subir para o camion para esconder umas doses de insulina do nosso médico oficial da expedição o Pedro Masson. Foi obra, daí se calhar ter contribuído para a cronhada.

Arrancamos e paramos de seguida era urgente falar para Lisboa. Mas também era perigoso parar porque andávamos a ser seguidos ao longe, víamos pelas nuvens de pó.

Falar para Lisboa, era importante, mas montar aquele telefone satélite, obrigava a montar todo o sistema, a ligar o gerador e como tal barulho um barulho diferente. Reunimos o pessoal e arriscamos.

Fazemos um círculo com as viaturas, montamos o material e a tensão sobe, para a primeira ligação eram necessários 5 a 10 minutos, eu no cimo do camion controlava ao longe a nuvem de poeira com uns binóculos, mas tinhamos de arriscar e eis que do meio do nada estavamos a falar para a Presidência da República.

Lançamos então o 1º pedido dramático de socorro, pedimos auxílio, e só o facto de com aquele telefone nos termos ligado ao mundo nos tornamos menos indefesos.

O Presidente Mário Soares, lança um pedido de ajuda internacional, liga ao Presidente Mitterrand, que por sua vez solicita ao Presidente do Mali o envio de uma coluna militar para vir ao nosso encontro, mas faltava chegar a Kidal.

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Notavelmente coeso e sereno o grupo estava pronto para tudo, até para um terceiro assalto, este caricato.

Lá íamos nós na nossa viagem para Kidal, quando se junta a nós um tractor DAF, com matrícula italiana, acompanha-nos por mais de 150 kms, quando de repente nos ultrapassa e mais a frente para e se coloca de frente para nós.

São dois homens Touaregues e uma criança, um dos homens com uma metralhadora.

 Pedem-nos mais um jeep, e mandamos o pior. Nessa altura aprendi um truque, bem importante. O truque  consistia em retirar de um dos esguichos do limpa vidros o tubo e apontá-lo para o motor de forma discreta.

Ao haver um assalto, por norma levam os melhores carros, e assim sendo ao esguichar para cima do motor isso quereria dizer que este aquecia, já que se produzia vapor de água. E isto resultou e de que maneira, daí o Santos Pêras não ter ficado sem o seu UMM.

Bem de tão caricato ter sido o 3º assalto que os homens, aconselharam-nos a mudar de pista, já que aquela era uma rota de  assaltos. Levaram-nos para pista segura e pernoitamos já perto de Kidal. Ninguém dormiu, toda a gente via bandidos em todo o lado.

O silêncio era absoluto naquele acampamento. Queria era chegar a Kidal.

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Comentários

2 comentários a “I EXPEDIÇÃO LISBOA A LUANDA EM TODO TERRENO – 1992 – CONTINUAÇÃO 3”

  1. Avatar de Paulo Gonçalves
    Paulo Gonçalves

    Foi com grande emoção que li e revi as imagens desta Grande Aventura, inesquecível, irrepetível, irrealizável nos tempos de hoje.
    Ficaram grandes recordações e muitas imagens na memória, visto que as que tinham sido registadas para compartilhar ficaram à entrada do Mali…(vide descrição do dia 2 de Abril).
    Um forte abraço, Paulo Gonçalves

  2. A emoçao foi forte quando revi esta aventura,logo saudades tambem de rever os companheiros da aventura,deixo aqui um desafio a todos para que nao a deixemos cair, contacta.
    Um grande abraço,Filipe Oliveira.